Memórias de 74: momentos de aflição na enchente

Créditos: Guilherme Simon/DS

Há exatos 45 anos, Tubarão passava pelo maior desastre natural: a enchente de 1974 devastou a cidade, resultou oficialmente em 199 mortos e deixou uma marca nos moradores que passaram pela tragédia. O aposentado Haroldo Luiz de Oliveira, de 82 anos, é uma dessas pessoas, cujas lembranças deixaram “cicatrizes”.

Segundo ele, um dos momentos de pura aflição foi quando o caminhão do Exército passou pela frente da residência para levar os moradores para o morro da Catedral. “Coloquei meus filhos na carroceria e fui chamar minha esposa, Êdula, que estava separando algumas roupas para levar. Enquanto entrei para chamá-la, o caminhão saiu. Foi desesperador, pois nossos filhos foram e a gente ficou. Então, eu e minha esposa tivemos que ir a pé até a Catedral, no meio da água, para encontrá-los”, relata. 

Para ele, a cena nunca será esquecida: “Saímos de casa cedo, com um trouxa de roupas nas costa, a pé, contra a correnteza. Deixamos tudo o que tínhamos lá, na nossa casa. Foram momentos difíceis, desesperadores, e que marcam até hoje”.  

Além disso, outro susto foi quando um amigo disse que a residência de Haroldo tinha sido destruída. “Ele havia passado pelo outro lado do rio, a cavalo, e viu uma casa destruída. Achou que fosse a nossa e nos avisou. Foi outro susto. Mas depois que a água baixou e voltamos, vimos que, por sorte, não era a nossa. Pelo que aconteceu na cidade, constatamos que perdemos pouco. Somente o muro caiu”. 

De acordo com o aposentado, houve ainda uma perda mais dolorosa. “Um sobrinho morreu na enchente. Ele foi salvar uma mulher e, depois, se segurou em um cavalo para não ser levado pela correnteza. Mas ele levou um coice, se soltou e morreu”, lembra.

Haroldo, que mora na mesma casa, na beira-rio, desde a época da enchente, conta que por sorte a água não destruiu tudo. “Lembro que a água não atingiu tanto a nossa casa. Quando o rio transbordou, ela se espalhou e não subiu muito na nossa residência. Os móveis, na época, tinham pés e não estragaram por isso”, conta.

Quando a água baixou, a destruição estava em todos os lugares. “Saí de bicicleta pela cidade. Era buraco por todo lado, fios pelo chão. Pessoas tentando reorganizar suas vidas. Até hoje moro na beira-rio, mas sempre que o nível do rio sobe, bate aquele medo. Hoje, se uma enchente como a de 74 acontecesse, a destruição seria avassaladora. Temos mais construções e muito asfalto, que não ajuda a absorver a água. O rastro de destruição seria infinitamente maior”, observa Haroldo.

Fonte: Diário do Sul