Brasileiro diz ter planejado a própria prisão na Venezuela: ‘Desprezível e irresponsável’

Após Jonatan Diniz divulgar que planejou prisão no país vizinho, entidade de Balneário Camboriú que se envolveu nas tratativas para libertá-lo diz que ele foi egoísta.

 

 

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Brasileiro mora em Los Angeles e foi para Venezuela para ajudar crianças, segundo família (Foto: Facebook/Reprodução)

A Comissão de Direitos Humanos da OAB de Balneário Camboriú, no Litoral Norte, criticou o brasileiro Jonatan Diniz, que divulgou um vídeo nesta semana dizendo que planejou a própria prisão ocorrida na Venezuela no final do ano passado, e classificou a atitude dele como ‘desprezível’. A própria família do designer gráfico disse que ficou ‘estarrecida’ com o que ele fez.

“Causou-nos repulsa a manifestação de Jonathan de que sua prisão teria sido premeditada, e que tinha como intuito chamar a atenção do mundo para as mazelas sociais que ocorrem na Venezuela, bem como, convocar as pessoas a ajudar sua ONG”, disse a Comissão da 15ª subseção da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), por meio de nota.

Jonatan, de 31 anos, ficou 11 dias preso. O governo do país afirmava que o brasileiro era membro de uma organização criminosa e presidia uma ONG de fachada, acusação negada pela família do jovem, que vive em Balneário Camboriú.

O designer gráfico foi solto, expulso no sábado (6) e voltou para os Estados Unidos, onde mora. Na terça-feira (9), chegou a reclamar das condições da prisão em sua rede social. Na quarta (10), no entanto, ele divulgou um vídeo dizendo que, na verdade, havia planejado tudo e que a intenção dele era chamar a atenção das pessoas para a situação das crianças venezuelanas.

Durante a prisão de Jonatan, tanto familares dele quanto o Itamaraty relataram dificuldades em obter informações sobre o paradeiro dele na Venezuela.

Críticas

Na nota, a Comissão de Direitos Humanos da OAB de Balneário Camboriú disse que empenhou esforços, assim como pessoas e instituições brasileiras, na tentativa de libertar Jonatan e que, por isso, classificou a ação dele como “egoísta, vaidosa, irresponsável, desnecessária e desrespeitosa com centenas de pessoas dos dois países que envidaram esforços para preservar sua integridade física, e obter sua libertação”.

A Comissão também diz que o fato deve ser apurado para responsabilizar o jovem e verificar se há terceiros envolvidos na situação, e pede desculpas “às pessoas e instituições dos Brasil e da Venezuela indevidamente importunadas para auxiliar na resolução deste incidente”.

Os recentes problemas diplomáticos envolvendo Brasil e Venezuela, com a expulsão de diplomatas dos dois países, também foi lembrada pela Comissão, que disse ainda que Jonatan não tem condições de cuidar de ninguém.

“Classificamos como inadmissível que alguém, seja quem for, propositalmente aja no sentido de agravar uma crise diplomática já existente, sem levar em consideração as consequências de seu ato. Não acreditamos que de uma mentira seja possível nascer algo capaz de fazer o bem às pessoas, e mais que isso, não acreditamos que alguém que seja capaz de tamanha irresponsabilidade, tenha condições de cuidar de quem quer que seja”, critica a Comissão.

Família está ‘estarrecida’

A família de Jonatan Diniz informou, também por meio de nota, nesta sexta-feira (12) que ficou estarrecida com a informação de que ele planejou a própria prisão.

“Queremos deixar claro que a família envidou todos os esforços para a libertação de Jonatan, o que além de um ato de amor, era sua obrigação moral. Entretanto, a família jamais imaginou que sua prisão fosse resultado de um ato premeditado. Ficamos estarrecidos ao tomar conhecimento das declarações”, diz a nota.

A família agradeceu o esforço de entidades e organizações pela libertação dele e pediu “sinceras desculpas pela atitude reprovável de Jonatan”.

“Deste momento em diante só quem responde pelo Jonatan é ele próprio. Esperamos que Jonatan possa entender e encontrar o melhor caminho para suas ações sociais”, finaliza a nota enviada pela família.

Família aguardava informações sobre brasileiro preso na Venezuela (Foto: Luiz Souza/NSC TV)

‘Irresponsabilidade’

Por meio da assessoria de imprensa, a OAB de Santa Catarina lamentou o episódio e disse que a nota manifesta a posição apenas da Comissão de Direitos Humanos da OAB de Balneário Camboriú, porque foi ela que se envolveu diretamente nas tratativas para libertar Jonatan.

G1 ainda não teve resposta do Itamaraty sobre a situação, o custo das tratativas de libertação de Jonatan, assim como as possíveis punições.

Veja a íntegra da nota da Comissão da OAB:

A COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS DA 15a SUBSEÇÃO OAB – Balneário Camboriú-SC, acerca do episódio envolvendo a prisão e libertação de Jonatan Moisés Diniz pelo Governo da Venezuela, e também acerca da reunião realizada ontem, 10 de janeiro, convocada por sua ONG, cujo o anúncio propagandeava, além da oficialização DAQUELE coletivo, esclarecimentos sobre a prisão e libertação do Jovem. A CDH, com vista a dar uma satisfação a todos aqueles que foram instados por ela para auxiliar na resolução deste incidente, MANIFESTA-SE nos seguintes termos:

Causou-nos repulsa a manifestação de Jonathan prestadas no vídeo enviado pelo mesmo, de que sua prisão teria sido premeditada, e que tinha como intuíto, chamar a atenção do mundo para as mazelas sociais que ocorrem na Venezuela, bem como, convocar as pessoas a ajudar sua ONG. Mais que desprezível, classificamos essa atitude como egoista, vaidosa, irresponsável, desnecessária e desrespeitosa com centenas de pessoas dos dois países que, anonimamente, ENVIDARAM esforços para preservar sua integridade física, e obter sua libertação. Pessoas que compõem os corpos diplomáticos dos dois países, OAB em todas as suas esferas, imprensa, ONGs sérias, dedicadas à preservação dos direitos humanos, e principalmente os profissionais que prestam serviços ao governo venezuelano, que colocaram em risco sua credibilidade e seus negócios com aquele país, tudo com vistas a trazer Jonathan de volta para casa, em segurança.

Classificamos como inadmissível que alguém, seja quem for, propositalmente aja no sentido de agravar uma crise diplomática já existente, sem levar em consideração as consequencias de seu ato. Não acreditamos que de uma mentira seja possível nascer algo capaz de fazer o bem às pessoas, e mais que isso, não acreditamos que alguém que seja capaz de tamanha irresponsabilidade, tenha condições de cuidar de quem quer que seja.

Tais fatos devem ser elucidados, com a apuração do grau de responsabilidade do seu causador, bem como, se há envolvimento de terceiros, que também devem responder por seus atos, caso comprovada tal premissa.

Por fim, essa Comissão aproveita a oportunidade para apresentar suas escusas às pessoas e instituições dos Brasil e da Venezuela indevidamente importunadas para auxiliar na resolução deste incidente, porém, reiterando seu compromisso de seguir defendendo os Direitos Humanos, por mais adversas que sejam as condições para isso.

Balneário Camboriú, SC, 11 de janeiro de 2017.

COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS DA 15a SUBSEÇÃO OAB/SC

Veja a íntegra na nota de esclarecimento enviada pela família de Jonatan:

A família de Jonatan Moisés Diniz vem, por meio desta, manifestar-se em função dos últimas declarações feitas por ele à imprensa e em redes sociais.

Queremos deixar claro que a família envidou todos os esforços para a libertação de Jonatan, o que além de um ato de amor, era sua obrigação moral.

Entretanto, a família jamais imaginou que sua prisão fosse resultado de um ato premeditado. Ficamos estarrecidos ao tomar conhecimento das declarações contidas no vídeo publicado por Jonatan. Isso porque, mesmo de forma independente, Jonatan há tempos está direcionado ao ativismo social.

Após recebida a notícia de sua prisão (mediante contatos de amigos de Jonatan na Venezuela), a família ficou sem chão. Desde 26 de dezembro de 2017 não houve mais contato e as mensagens enviadas apareciam como não tendo sido recebidas. Também não havia qualquer notícia sobre seu real paradeiro. Só restava à família conseguir o apoio possível em busca de notícias.

A imprensa, o governo, as mais variadas correntes políticas, as entidades não governamentais, os grupos e os movimentos de Direitos Humanos e, principalmente, o povo brasileiro e venezuelano mostraram solidariedade e não mediram esforços para tirá-lo da prisão.

Por isso, além de agradecer o apoio de todos, pedimos sinceras desculpas pela atitude reprovável de Jonatan.

Esperamos que entendam, inclusive a mídia, que estivemos neste período todo com nossas vidas direcionadas apenas a este assunto, porém cada um tem seus próprios assuntos a resolver, trabalho, família, estudos… Por isso deixamos claro que não temos intenção alguma de continuar dando declarações à respeito do ocorrido, tudo que tínhamos que dizer já foi dito, e deste momento em diante só quem responde pelo Jonatan é ele próprio.

Obrigado, de coração, a todos que nos ajudaram a superar este episódio. Esperamos que Jonatan possa entender e encontrar o melhor caminho para suas ações sociais.

Balneário Camboriú, 12 de janeiro de 2018.